A PERCEPÇÃO DO AMOR

10/02/2012 06:29

 

Diante do amor pode-se escolher: parar ou seguir.

Paralisam-se os que o temem, desconhecem ou, simplesmente, desacreditam da sua existência.

Seguem-no aqueles que permitem serem tocados por ele e se deixam envolver. Apesar do medo e da dúvida, resolvem lhe dar um voto de confiança e entregam-se.

Qual a melhor escolha? Cabe a cada um decidir.

No Momento de Luz de hoje, Gregório conta-nos como percebeu o amor. Não sei como suas palavras repercutirão em vocês. O fato é que há um sentimento de encorajamento a escolher segui-lo.

Que tenhamos uma linda viagem de descobertas e escolhas!

 

 

A PERCEPÇÃO DO AMOR

 

Certa vez... - a essa altura eu já podia caminhar pelos lindos bosques daqui - eu encontrei, em uma das minhas caminhadas, um casal a conversar.

 

Chamou-me a atenção, porque pensei que, uma vez aqui, morto na vida, o amor romântico deixava de existir. Percebi nele um casal, pois caminhavam de mãos dadas e, de seus olhos, brotavam toda a alegria do amor –paixão. Falo-lhes assim para que reconheçam, em minhas palavras, o amor de um homem por uma mulher. Resolvi segui-los.

 

Senti-me o próprio Sherlock Holmes. Atrás de arbustos fiquei a observá-los. Riam do nada, abraçavam-se a todo instante e faziam promessas pelo olhar. Fiquei tão atento e admirado que não percebi a aproximação do meu cuidador. Chegou de mansinho, tocou gentilmente em meu braço e com um simples olhar e movimento da cabeça indicou-me a ação e o direcionamento que devia tomar.

 

Envergonhado, tentei me explicar. Ele sorriu, como sempre o faz quando me pega num questionamento sobre a vida. Levou-me ao primeiro banco que encontrou e se pôs a me fitar.

 

Coração disparado... Pensa que não bate por aqui? Pois estava perto de sair pela boca. Não sei se era pela cena que há muito não via e desejava também viver ou se pelo susto de ser pego em atitude não aprovada por esses lados.

 

Acalmou-me dizendo:

 

- Porque não se acalma e inicia seus questionamentos? Não se preocupe. Não foi, e nem será, o primeiro a admirar-se ao perceber o amor surgir e se fazer presente irradiando luz. Pode não acreditar, mas tal evento ocorre todos os dias da vida, seja aqui, seja de onde veio. São pequenos milagres que Deus permite acontecer através do livre arbítrio dos homens.

 

Preparei-me para iniciar minhas colocações. Primeiro, respirei fundo, fechei os olhos e retornei à visão do instante anterior e tentei lembrá-la e absorvê-la. Depois, olhos e coração abertos para tentar compreender, questionei.

 

- Como pode o amor ocorrer todos dias ao lado de tantas agressões, maldades, roubos, violência e depravação? Acredito que ocorre. Mas do lugar onde estão será que não conseguem, assim como afirmou, irradiar luz? O que vi por várias vezes foi comprometer homens, provocar mortes, derrubar estados.

 

- Não sabe o que diz. Pode não acreditar, mas o amor se faz presente em cada homem e deles partem sua iluminação, alcançando todo o ambiente ao redor. Tornam-se exemplos, passam a ser seguidos. O que traz na memória nada mais é que a paixão humana. Desenfreada, descuidada, que desrespeita, magoa e machuca muitos corações. Uma vez que a conhece desiste de ouvir o coração. Pois, vou lhe contar minha história.

 

 - Quando aqui cheguei, e lá se vai muitos anos, fui cuidado por um irmão de luz, que me dedicou uma longa parte de seus dias. Ao acordar, sempre o encontrava em minha cabeceira. Somente seu olhar era capaz de me acalmar e devolver-me o sono reparador. Combinava-lhe com um lindo sorriso que iluminava a minha alma, retirando-me da escuridão que me encontrava. Quando balbuciou as primeiras palavras, pois já podia escutá-las, disse-me:

 

 “- Não tema. Estou e sempre estarei a seu lado.”

 

 - Ao ouvi-la, meu ser estremeceu, pus-me a chorar como uma criança ainda de colo. Afagou-me os cabelos e, ao passar as mãos pelos meus olhos, fez-me adormecer. Meu sono não fora tranquilo como já passara a ser. A frase se repetia e me via enrolado em suas letras e sons. Acordei aos prantos, gritando em desespero. Desta vez, o cuidador não estava ao meu lado. Havia sido substituído. O irmão que agora me acompanhava estendeu a mão até uma mesinha ao lado para pegar um copo com água que logo me ofereceu. Acompanhando seus gestos, pude ver a rosa vermelha que despontava de um pequeno vaso, ao lado da jarra que trazia o líquido que me fez acalmar. Adormeci com esta pequena visão. No sono, a perturbação era substituída pela imagem da rosa que se sobrepunha a ela, trazendo-me paz e coragem.

 

- Acordei e adormeci várias vezes. Sempre avistava a flor que partia, junto comigo, pelo mundo restaurador do sono. Quando, finalmente, consegui levantar, alcancei-a. Jamais havia visto tanta beleza! Seu perfume me invadia, fortalecendo-me e enchendo-me de coragem. Sentia-me vivo e recuperado. Não fazia ideia da doença que me deixou por tanto tempo internado. Desde a última frase, não ouvia palavras direcionadas a mim, até aquela manhã, quando recebi o convite para caminhar pelo jardim.

 

- Meu novo cuidador apoiou-me e conduziu-me. Por todo caminho sentia que não estávamos sozinhos. Quando dormindo, acreditava que a presença da flor me fornecia tal sensação, mas agora era diferente. Procurei por alguém. Percebendo minha aflição, levou-me a um banco. Fez-me sentar e, partindo, disse que logo voltaria. Comtemplei aquele belo lugar e fechei os olhos para senti-lo.

 

- Foi quando, quem eu procurava, me apareceu. Despertei de minha contemplação ao leve toque de sua mão, que me presenteava com uma rosa. Reconheci seu sorriso e balbuciei sua frase. Ela sentou-me a meu lado, tocou minha fronte e finalmente pude compreender.

 

- Lembrei-me de uma cena em que estava ao seu lado num quarto de hospital encorajando-a a lutar pela vida, mas ela repetia, a cada momento de dor e de desespero: “Não tema. Estou aqui e sempre estarei ao seu lado.”. E, certa manhã, a vi partir, depois de repetir novamente a mesma frase. Na mesinha ao lado, a flor vermelha que eu deixava diariamente para fazer-lhe companhia, quando por algum infortúnio não podia estar a seu lado. Pensei que a acompanharia, mas era sua frase me acompanhava, encorajando-me a viver. Depois disso, enchia a casa de rosas vermelhas, perpetuando sua vida a meu lado. Agora ela esta ali. Chorei. Sorri e abracei-a. Entreguei-me novamente aquele amor que superou a distância e permanecia vivo.

 

Emocionado, meu curador levantou-se e me deixou só.

 

Acompanhei-o com o olhar e avistei um radiante espírito se aproximar dele, rosa vermelha em punho, abraçaram-se e partiram juntos.

 

Tentei me lembrar dos amores que tive na terra. Espantei-me com a irradiação da luz que via despontar de nossos olhos e corações. Fenômeno que me chamou atenção no primeiro casal e me fez segui-lo. Pude observar novamente, tal fenômeno, a se desprender de meu cuidador e de sua companheira. Gostaria de poder descrevê-lo, mas não sou um poeta e, sim um cronista. Não me atrevo a fazê-lo, porque não o saberia fazer com competência, podendo estragar tão bela visão. Garanto-lhes que é algo indescritível de tão belo. Tão magnifico que, ao vê-lo, enchi-me de inveja, raiva e decepção por não ter sido capaz de viver algo de tamanha magnitude.

 

Os raios que vi partindo de mim eram fracos, apesar de existirem. Belos, mas jamais encantadores como avistava agora. Viajando em meus pensamentos, percebi o ciúme que me afetava e me fazia gritar, bater, magoar e ferir. Avistava, neste momento, que a luz desaparecia e uma escuridão brotava de mim, circundando-me.  Pude ouvir risos irônicos de comemoração.

 

Envergonhei-me de mim mesmo, da minha inveja e de como inquiri meu cuidador e amigo. Ele estava certo. Não conhecia o amor. Deixei-me cegar pela paixão, pela posse do outro a quem era capaz de ferir se não estivesse ao meu controle. Senti-me pequeno, falido e encolhi-me, sentando-me no chão. Meu desejo era esconder-me debaixo daquele banco.

 

Estava nesse processo de auto piedade, quando o jovem casal aproximou-se de mim. A linda jovem entregou-me um papel dobrado e um ramo de flores do campo coloridas. O rapaz me fez levantar e sentar-me novamente no banco. Despediram-se e saíram. Se fosse branco e pudesse me enxergar agora, estaria, com toda certeza, com as faces rosadas. Agradeci com um sorriso e vendo-os se afastar corri para abrir o pequeno pedaço de papel em minhas mãos. Hesitei por um segundo, mas deixei-me vencer pela curiosidade que me corroía.

 

Estava escrito: “Não perca tempo. Acredite no amor. Uma vez acreditando, ele acontecerá.”

 

Voltei ao chão. Desta vez, entorpecido. Deixei-me cair no tapete verde e macio. Braços abertos, olhos para céu, chorei.

 

Acho que o amor finalmente visitava meu coração.

 

Vejo-os em breve.

Gregório

07.02.2012

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