A HÓSPEDE

25/05/2012 10:41

 

Esta semana, no Momento de Luz, relatamos a história de Samanta, a hóspede da Casa do Cristo.

Após uma longa jornada, Samanta chega a Casa do Cristo. Acolhida pela comunidade, sente-se amada e encorajada a continuar sua busca por si mesma.

Sua história nos faz refletir sobre nossas escolhas. Nosso caminho foi escolhido por nós ou por quem nos rodeia (familiares, amigos, mídia, moda...). Somos realmente quem somos?

Permita-se ser inspirado por esta partilha pessoal e se entregue a si mesmo, em um belo e amoroso encontro. Seja respeitoso e compreensivo.  E, se achar necessário, não tema, acredite em si mesmo, busque companheiros, mude de direção e siga.

Acredite! Você é capaz!

Lindo encontro!

Andréa

 

 

A HÓSPEDE

 

A caminhada havia sido longa. Quilômetros e quilômetros até chegar à Casa do Cristo. Chegou suja e maltrapilha, faminta e exausta. O desejo de chegar foi o que a fez mover-se, sem desistir e, finalmente, no fim daquela tarde, se viu diante do lugar que esperava.

Não pôde perceber os detalhes, pois já escurecia e suas vistas, devido às condições em que se encontrava, não obedeciam ao seu comando. O mesmo aconteceu com suas pernas e tronco, fazendo-a tombar no chão. Nem se esforçou para levantar, simplesmente, se deixou ficar ali. Há poucos centímetros da porta de entrada.

Rute andava a passos largos, pois o tempo caminhava chamando para o trabalho da noite. Ficara mais horas que planejara na casa de Francisca. Era difícil despedir-se dela. Um sorriso formou-se nos lábios a lembrar-se da cena ocorrida. Cada vez que se levantava para ir embora, a senhora, frágil e amorosa, a convidava a sentar. Introduzia novos assuntos, oferecia-lhe água, lanche, café... Muitas foram as desculpas que criou para manter a querida amiga um pouco mais ao seu lado.

Rute compreendia a necessidade de afago e atenção da bondosa senhora. Debilitada, acomodava-se em casa a espera de visitas. Passinhos  estreitos, chegava à janela com dificuldade, todas as manhãs e tardes, a fim de observar quem passava. Iniciava diálogos com os transeuntes e, ao reconhecer um conhecido, imediatamente, o convidava a entrar.

Era conhecida pelas deliciosas iguarias que preparava. Alguns, ao perceber o cheiro delicioso de suas guloseimas, aproximavam-se de sua janela, ansiando um convite. Dona Francisca fazia-se de inocente, demonstrava não compreender o verdadeiro motivo daquela aproximação. Não se importava, deseja aliviar a solidão com uma boa conversa. O que sempre acontecia, pois era espirituosa e divertida, encantava quem a conhecia.

Mas, em que pese toda a simpatia, chegou um momento que Rute teve que partir.

Ao aproximar-se da Casa do Cristo, Rute avistou o corpo caído no chão e correu para socorrê-lo. Pediu ajuda aos que chegavam e, juntos, carregaram-na e a levaram para dentro. Luzia providenciou colchão e roupas de cama. Marta trouxe roupas limpas e água. A acomodaram na sala de atendimento individual, cuidaram de sua higiene, trataram os ferimentos e a deixaram repousar. Marta ficou ao seu lado enquanto os outros se deslocaram para o salão para iniciar a reunião da noite.

Ao termino da reflexão, no momento da oração final, Rute falou sobre a hóspede da Casa do Cristo e rezou por sua recuperação. Encerrada a reunião, muitos participantes a procuraram, oferecendo ajuda. Os voluntários se revezaram nas tarefas de cuidados e na manhã do quinto dia a jovem despertou mais disposta.

 Naquele dia, não se falava em outra coisa na comunidade. Todos queriam conhecê-la. Ouvir sua história. Porém, ainda fraca, manteve-se em repouso por mais dois dias. Aos poucos foi conhecendo cada um dos amigos que se dedicaram a sua recuperação. Fazia questão de abraçar um por um, em forma de agradecimento.

Na noite que participou da primeira reunião, podia se ver lágrimas rolarem por sua face. Era visível sua emoção. Ficou quieta, concentrada, não se pronunciou.  Após o encerramento, recebeu com alegria as demonstrações de afeto e se recolheu sem nada dizer.

Apesar da curiosidade, a comunidade respeitava o silencio da jovem e esperava o momento que ela se sentisse confortável para contar sua história. Tratavam-na com carinho e ela retribuía da mesma forma. Colocava-se sempre a disposição para contribuir com o que precisavam. Ajudava na limpeza do salão, na plantação da horta, no cuidado com as crianças. Passava horas conversando com dona Francisca e cuidou dela quando esteve adoecida.

No fim de alguns meses estava completamente integrada a comunidade. Dona Francisca a convidou para morar com ela e, agora, finalmente, conseguiu afastar a solidão.

Certa tarde, ao chegar do trabalho, Rute a encontrou em sua porta. Trazia nas mãos um lindo ramo de flores vermelhas perfumadas. Feliz com sua visita, convidou-a a entrar.

Parecia envergonhada, sem coragem de falar. Rute abraçou-a, agradeceu o presente e a fez sentar ao seu lado. Afagando seus cabelos, encorajou-a a abrir seu coração. Não conseguiu começar, um choro sufocado se desprendeu de seu peito e Rute a amparou em seus braços.

Após alguns minutos, mais calma, começou a relatar sua história.

- Vim de muito longe. Acompanhava minha família que fugia da seca e da miséria da nossa localidade. Saímos em caravana. Éramos muitos, porém, poucos conseguiram chegar.

Por algum tempo foi preciso ceder espaço as lagrimas que teimavam a cair.  Rute ofereceu-lhe água e ela foi acalmando-se. Continuou...

- A fome e a sede nos encontraram pelo caminho, e, implacáveis, levaram crianças e idosos. Os outros seguiram, sofridos, atordoados, desesperançados.

- Os dias corriam sem pressa, tornando o objetivo cada vez mais longe de ser alcançado. Exaustos, nos acomodamos na sombra de um barranco a espera de um milagre. E ele veio, despontou em forma de chuva e pudemos refrescar o corpo e a alma. Ajoelhados, mãos para o céu, em agradecimento, nos dirigimos ao pai. E ele se fez novamente presente.

Um sorriso tímido brotou de seus lábios

- Surgiram no horizonte, pessoas cavalos e carroças. Homens em busca de trabalho a poucos metros dali. Sensibilizados com nossa história, nos ofereceram alimento e oportunidade. Partimos juntos.

- Era uma grande fazenda e seus proprietários nos receberam com satisfação. Instalaram-nos em dormitórios improvisados e arrendaram terras para nosso sustento. A vida tornou-se bela: trabalho, abrigo, alimento.  Quando a saudade pelos que partiram apertava o peito, reuníamos e orávamos agradecendo a Deus o que agora tínhamos. Espantávamo-nos a tristeza e seguíamos em frente.

- Eram momentos tão reconfortantes que acordamos nos reunir semanalmente. Os mais velhos traziam histórias do passado, que nos faziam refletir e aprender grandes lições. Sempre começávamos e terminávamos com uma oração. Ficamos mais unidos, mais fortes e mais felizes.

- Certo dia, em um destes encontros, tive uma visão. Um homem se aproximou de mim e disse algumas palavras que repeti ao grupo. Foi um espanto geral. Ninguém compreendeu o que aconteceu. Houve divisão de opiniões. Uns tiveram medo, achavam que era coisa do outro mundo. Outros pensaram que eu tivera um surto.

- Este evento se repetiu outras vezes. Os lideres da comunidade se preocuparam. O grupo dividido podia rachar e enfraquecer. Taxaram-me como louca e me ignoraram. Minha mãe chorava, dia e noite, pelo meu acometimento. Meu pai temeu minha sorte e me orientou a parti. Entregou-me alimento, água e um pouco de dinheiro e despediram-se de mim.

- Deixei-os sobre protesto, numa madrugada, para que tivesse chance de alcançar um abrigo ao final do dia. Vi, ao passar, os amigos fazerem o sinal da cruz, aprovando a minha partida.

- Meu companheiro invisível, assim o chamava, acalmou-me e guiou-me até aqui. Longo foi o percurso. Cheio de obstáculos geográficos, porém estive protegida pelos céus. Aqui cheguei cansada, debilitada pela longa jornada, com alguns arranhões que adquiri pelo caminho, mas com a alma tranquila e feliz.

- Tive medo de contar-lhes e ser tratada da mesma forma, rejeitada e excluída. Meu companheiro invisível respeitou minha decisão e se calou até está manhã. Orientou-me a procura-la e aqui estou.

Rute reviu sua história de vida, porém mais sofrida e dolorosa. Agradeceu a Deus a amorosidade de seus pais, o apoio do velho ancião e a compreensão de sua comunidade. Abraçou a jovem Samanta e contou-lhe sua história. Estavam ligadas, envolvidas em um objetivo maior.

24.05.12

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