FESTA DE ANIVERSÁRIO

24/02/2012 07:19

 

Esta semana, Gregório acompanha os textos postados na última semana nosso Momentos de Luz e nos conta sobre uma de suas festas de aniversário. Comemoração pela subida de mais um degrau na escada da evolução.

Chamou-me a atenção à interligação da mensagem de Gregório com o texto Trem da Vida postado neste blog no dia 17.02.12 e a Vivência Mediúnica 78.

O Trem da Vida fez-me pensar sobre a dificuldade de crescer, ter de deixar o colo dos pais e ocupar um acento sozinho. Pois, apesar do aperto e do incomodo, o colo é conhecido, dando-nos a falsa impressão de ser mais fácil e agradável do que o que nos espera nosso novo lugar.

A Vivência mediúnica 78 descreve um comportamento vitimado que assumimos diante das dificuldades que encontramos no caminho do crescimento. Muitas vezes, atordoados, deixamo-nos cair na queixa. Vítimas do destino, procuramos quem assuma nossas responsabilidades e resolva nossas vidas.

“Só hoje quero colo. Só hoje quero que me pegue pela mão e me conduza sem precisar fazer nenhum esforço. Só hoje. Dá pra resolver meus problemas por mim?”

Como é bom poder contar com os que chegam à nossa estação. É um convite e encorajamento a seguir, uma vez que percebemos que não estamos sozinhos: temos com quem falar, aprender, compartilhar.

Alguns, simplesmente, passam. Outros permanecem. O importante é que todos, de um jeito ou de outro, sempre acabam por deixar em nós algo precioso. Às vezes, apenas, um sorriso. Outras vezes, até mesmo, quando nos perseguem ou caluniam, acabam por contribuir com nosso processo de crescimento. Cabe a nós saber aproveitarmos cada encontro. Será que estamos sabendo fazê-lo?

Se for só por hoje, eu...

É impossível crescer ao colo dos pais, amigos.... Não há espaço.

São os encontros e desencontros, as quedas e subidas que nos permitem vivências e aprendizados.  

Gregório compartilha conosco um destes momentos. Chora, faz muxoxo, beicinho, bate o pé até enxerga-se e escolher crescer mais um degrau na vida.

Não deixem de conferir os textos, reuni-los e extrair reflexões.

Que tenhamos uma linda subida!

Andréa

 

FESTA DE ANIVERSÁRIO

                                                                                                

Certo dia, eu acordei desgostoso. Cansado de nada fazer. Fazia meses que havia acordado pela primeira vez e me dedicava a passeios, conversas, pequenos estudos.  Lia, desesperadamente, tudo que chegava a mim. Pedido atendido, sempre tinha em mãos cadernos e canetas. Naquele dia faltava-me inspiração.

Resolvi caminhar. Observava cada ponto que despontava sobre meus olhos, mas nada. Tudo me inquietava. Fui em busca de meu cuidador. Encontrei-o ocupado como sempre, sem tempo para discorrer comigo. Chateado, agi como criança: resmunguei, ampliando o que sentia, podia lhes afirmar que fiz beicinho, muxoxo e bati o pé. Tal qual criança mimada, desejando de ser atendida, tentava comover o pai e a quem passava.

Meu cuidador olhou-me bravo pela primeira vez e disse:

- O que sentes agora e, posso mostrar-lhe materialmente, é o egoísmo. Porque ao invés de procurar algo para si, não procura algo para fazer por alguém?

Pensei enraivado.

- Como pode me julgar assim?

Sou um paciente em tratamento e estou a contribuir diariamente através de meus pensamentos, uma vez que sou um escritor e tal missão acolhi. A missão de ensinar.

Como já os disse mais de uma vez. Por aqui, seus pensamentos não pertencem só a você. Estendem-se a quem mais quiser. Tenho tentado persuadi-los, sem êxito. Não tenho mais nenhuma individualidade.

- Tudo nesta d... de lugar é coletivo.

Aproveitei-me que pescara meu pensamento e despejei:

- Como posso ser egoísta? Até meus pensamentos preciso dividir. Pois se trata de compaixão, olharem e terem paciência comigo. Sou um pobre doente em convalescência.

Nada adiantou. Nada. Usarei esta palavra por muitas vezes hoje, pois que traduz o que sentia, vivia, fazia, falava, argumentava... Não prossegui minhas lamúrias porque, neste momento, era tachado de negativo e resmungão.

Deixei-os, enraivado, andando firme, batendo os pés numa malcriação de deixar qualquer pequeno muito orgulhoso.

Porém, não era bem assim que me sentia.

O gosto de azedume descia a garganta. Nunca (olha ela de novo) havia me sentido assim antes, digo, aqui, porque na vida anterior a esta, este sabor me perseguia. Lembrei-me das desavenças, maus modos, traições, desajustes... e fui invadido pelas lembranças da miséria e da dor que me circulavam. Quando percebia tais lembranças, abaixava o rosto e seguia, entrando no lar que me esperava. Orava a Deus e suplicava solução. Depois, levantava-me e seguia a vida.

Certa vez, pus-me a escrever. Falei sem parar, ou melhor, escrevi sem parar e, acabado a inspiração, achei que sucesso não faria. Agredia aos que não podia, satirizava aos que não devia. Abandonei-o na gaveta. Até que dia, virou moda falar sobre a inquietude humana.

Papel na mão, discorri sobre mim mesmo, sobre minha angustia de nada fazer e, desta vez, enviei-o. Recebido por uns como agressão e por outros como inspiração, eis que começou um período de ódio. Armado pela caneta, nunca mais me calei, porém, anos se passaram acreditando que somente isto bastava.

Assim cheguei aqui.

O intelectual que poderia usar dos instrumentos da escrita e da literatura para se achar construtor de alguma coisa. Assim me considerava até aquele dia.

Diante de tais lembranças me desequilibrei. Um ar de culpa e remorso tomou-me de imediato. Prostrado na cama, com pena de mim, com raiva de mim, com vergonha de mim... Fiquei.

Os amigos diários, amigos que compartilhavam comigo das mesmas inquietações, que me prestavam seu auxilio, lá estiveram, mas nada me fazia melhorar. Derrotado, permaneci.

Ele, meu cuidador, chegou de mansinho, olhar sereno, calma ao falar. Sentou-se ao meu lado, a cabeceira da cama, como havia feito por longos dias.

Tocou-me a fronte, fechando os olhos, orou. Suas palavras acalmavam meu coração, mas decidido a adoecer e ficar prostrado, ali permaneci. Olhos baixos, eu demonstrava cansaço e tristeza.

Ao término da oração, levantou-se e ao chegar à porta disse-me:

- A escolha é sua. Nada pode ser feito por ninguém para sua melhora. Apenas você o pode fazer. Se escolher crescer, aviso que este processo nem sempre se faz doloroso. Há momentos de gloria e alegria, porém é necessário bancar os resultados que virão: bons ou maus. A vida, também aqui, se faz de recomeços, de quedas e subidas. Se se mantiver na descida, a nenhum lugar poderá chegar. É preciso assumir as responsabilidades, perdoar-se e seguir em frente. Se tiver disposto, o aguardo lá fora. Se não, poderá ficar ai, na cama, a lamentar-se. Parado em si não poderá crescer, pois crescer exige relação satisfatória com os outros que, agora juntos a nós, ajuda-nos a subir, a levantar e a seguir. Muito há o que fazer. Apresse-se, não perca tempo.

E deixou-me.

Não acreditei no que acabara de ocorrer. Veio consolar-me ou incitar-me. Meu egoísmo saturava-me e, pesado, não consegui levantar. Fiquei ali por dois dias e ele não mais apareceu. Senti sua falta. Senti-me verdadeiramente abandonado.

Fiquei só, completamente só comigo mesmo. Redundante, pois assim me senti.

Tive febre, dor, mal estar geral. Não consegui levantar. Dois dias se passaram quando resolvi levantar-me. Não imaginam tal esforço. Agarrei-me ao lastro da cama, suei bicas, finalmente consegui. Corpo doendo até as entranhas, bebi um copo do líquido reparador. Desejei ter na cabeceira uma rosa vermelha, mas nada encontrei. Estava só.

Resolvi, então, invadir-me.

Novamente deitado, senti pequena melhora e embarquei em viagem interior.

Percorri os mais íntimos cantos de mim mesmo e fui desbravando todo terreno de inquietude, dor e lágrimas. Descobri que não estava só. Durante a minha caminhada interna, sentia-me acompanhado, uma luz me seguia, aquecendo-me e acalmando-me. Sentia-me cada vez melhor. E mas longe fui. Encontrei lugares jamais explorados por mim. Cuidei das feridas. Ouvi a mim mesmo, me acolhi.

 Ao término de um dia, sentia-me curado. O amor penetrava-me de dentro para fora como nunca havia experimentado. Despertei. Encorajado, levantei-me de sobressalto. Tal não foi minha surpresa quando ao atravessar a porta encontrei os que são caros a mim. Meu cuidador encabeçava o grupo, rosa vermelha na mão, disse-me:

- Que bom você despertou, há três dias que o espero. Abraçou-me com carinho e alegria e convidou-me a segui-lo. - Vamos, temos trabalho a fazer.

Sem nada dizer, o segui. Não antes de entregar a cada companheiro um olhar e um sorriso de agradecimento, por terem me acompanhado na minha viagem de crescimento.

Imaginei-me apagando muitas velas sobre um bolo de aniversário. Acho que finalmente deixava a infância par assumir a maior idade emocional.

Comemoro com vocês a subida de mais um degrau rumo ao crescimento. Sim, apenas mais um degrau. Pensam que consegui apagar todas as velas de uma só vez? A caminhada continua e amarei compartilhar meu processo de crescimento com vocês.

Até breve,

Gregório

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