MAIS UM PASSO

16/03/2012 08:41

 

Diante de novas possibilidades, o coração dispara, as mãos suam, o estômago grita. São estas sensações que, esta semana, Gregório compartilha conosco, quando convidado a dar mais um passo.

“Ansiedade, ânsia ou nervosismo é uma característica biológica do ser humano, que antecede momentos de perigo real ou imaginário, marcada por sensações corporais desagradáveis”. (wikipédia)

A ansiedade tem como função nos preparar para enfrentar ameaças, desafios. Façamos uso dela para nos impulsionar. Porém, tenhamos cuidado com sua capacidade de nos aniquilar, quando em excesso.

Segundo Joanna de Angelis, em “O Homem Integral”, a ansiedade deflui das incertezas da vida. São os desajustes individuais e coletivos que encontramos na nossa rotina diária, que nos deixam em alerta constante. E diz mais: “a ansiedade tem manifestações e limites naturais, perfeitamente aceitáveis. Ao extrapolar para os distúrbios respiratórios, a sudorese, a perturbação gástrica, a insônia, o clima de ansiedade torna-se um estado patológico a caminho da somatização física em graves danos para a vida”.

Joanna, então, nos convida ao autodescobrimento. “Mediante o aprofundamento das descobertas íntimas, altera-se a escala de valores e surgem novos significados para sua luta, que contribuem para a tranquilidade e a autoconfiança”.

O conhecer, o vivenciar, o compartilhar, nos fortalece, fornecendo-nos subsídios para o enfrentamento das vicissitudes da vida, impedindo nosso adoecimento.

Corajosos, sigamos em frente, utilizando a ansiedade e seu companheiro, o medo, como aliados.

Deixo-os com Gregório.

Boa reflexão,

Andréa

 

MAIS UM PASSO

 

 

Há dias eu estava a esperar por uma resposta. Sabia que ela vinha, mas minha ansiedade... Acha que por aqui não a sentimos? Pois que ela faz parte do nosso cabedal de sentimentos.

Cheguei a adoecer. Mãos geladas e suadas. Estômago a mil. Sei lá porque, a barriga sempre acompanha a cabeça. Pois estava com indigestão, em cólicas, como dizia minha mãe terrena. Não me prolongarei mais. Explicarei o que ocorria comigo.

Dias atrás meu cuidador convidou-me a palestrar. Começou dizendo que acreditava que eu já estava preparado para subir mais um degrau.

- Como assim? Perguntei de sobressalto.

Sabem que sou extremamente curioso. Ele sempre ri do meu jeito intempestivo, eu diria, hoje, totalmente infantil.

Deixarei de enrolá-los. É que desejo demonstrar toda angústia que sentia naquela época. Acabara de despertar para nova vida, porém mantinha, ainda, gravada em mim, as “relíquias” que trazia em meu períspirito. Acabara... Pode lhes parecer que foi ontem, mas já se passara alguns anos. Por aqui o tempo tem um jeito próprio de ir acontecendo. Ora depressa, ora devagar, ele vai nos levando de acordo com a nossa necessidade. Temos muitos anos a estudar, fazer, descobrir.

Queria aprofundar meus conhecimentos pela nova vida. Saía perambulando, observando, xeretando (com todo respeito que é exigido aqui), escrevendo, aprendendo. Meu cuidador sabia que eu queria percorrer novos caminhos. Sempre que podia me conseguia autorização para conhecer um novo ponto, lugar, pessoa. Assim, eu ia indo.

Então, naquela manhã de domingo, disse-me que iria propor aos “superiores” que eu pudesse ir a excursões a terra. Quando o ouvi, meu coração quase sai pela boca. A partir daquele dia mais nada conseguia fazer, apenas esperava a resposta.

Nada, jeito de falar, minha cabeça começou a viajar. Primeiro, me vi matando saudade da família (do que restava dela, se é que eu reconheceria alguém), amigos (o mesmo problema), lugares... Ah! A nostalgia tomou conta de mim.

Um espírito amigo com o qual sempre proseava acabou com minha fantasia de menino.  Certo dia, encontrando-me em tamanha angústia e imaginação, sentou-se ao meu lado e despertou-me com suas palavras.

- O que pensa? Que vai sair de férias? As excursões daqui pra lá são de serviço. Deus me livre voltar a terra! Uma vez, fui convidado. Fiquei do jeito que você está, todo animado. Fiz mil planos. Pois saiba que nem perto de casa passei. Fui muito longe, onde confesso que nunca desejei ir. Fomos encaminhar um grupo de espíritos em recuperação a uma reunião espiritual.

O meu amigo continuou o relato de sua experiência:

- Chegamos a uma pequena igreja bem cedo. O padre reunia seus párocos, semanalmente, para palestrar sobre assuntos ligados a saúde e a religião. Falava-lhes sobre Deus e seu dia- a- dia. Fazia um reforço às homilias das missas de domingo e festas. Tinha surgido nele está ideia. Liam o evangelho e discutiam. Traziam convidados que trocavam experiências. Os temas eram intuídos de acordo com a necessidade de encarnados e desencarnados.

- Os encarnados eram convocados por ele, na sua maioria, pois alguns acordavam inspirados e partiam em busca da reunião, sendo uma surpresa para todos, quando chegavam. Os desencarnados eram levados daqui.

-Naquele dia, eu também os acompanhava.  Muitos estavam enlouquecidos, não sabiam onde estavam e o que faziam. Dava trabalho para acalmá-los e fazerem ouvir. A energia era pesada, às vezes, ficava difícil respirar. Era um acumulo de lixo mental vindo de ambos os lados. Eu passei mal todas as vezes que estive lá. Então, solicitei trabalhar aqui. Prefiro acolher os pequeninos sem instrução e entrega-lhes a luz do conhecimento.

Este meu amigo era professor (por aqui, chamamos de instrutor) das escolas de formação. Tive muitas aulas com ele. Sincero, conhecedor, paciente, um pouco sensível de mais às energias. Vez em quando era necessário chamar um supervisor para acudi-lo. Tinha dificuldade de barrar energias negativas que chegavam, deixando que o fizessem mal.

Desanimei. Ainda tentei argumentar, visto que seria meu futuro.

- Não se faz interessante tantas figuras conhecer?

- Nada verá de diferente do que vê aqui.

- Não é possível. Respondi. Então, porque nos levam?

- Porque é preciso trabalhadores. E só.

Encurtou as palavras, disse que precisava voltar as suas aulas e se foi.

Minhas cólicas pioraram.

Não podia acreditar.

Nada aqui é por acaso ou sem necessidade.

Teria que ser um aprendizado, no mínimo.

Sem férias, muito trabalho, gente a conhecer, histórias a escutar... Fui me animando. A curiosidade tornou-se maior. Imaginei o quanto seria grande minha excursão, poderia voltar com um livro. Cresci, na verdade, insuflei. Foi assim que meu cuidador me encontrou.

- Acho que fez um novo panorama do nosso planejamento.

Respondi que faltavam poucas linhas para escrever no meu livro imaginativo.

- Se já o tem, então, não se fará mais preciso partir.

Quase desmaiei. Comecei a argumentar. Disse o quanto era exagerado, e... me refiz ao seu sorriso e palavras.

- Calma meu caro Gregório. Nem é como imagina, nem é como Fábio o descreveu. Precisa vivenciar para sabê-lo, por isso acalme-se, daqui a uma semana fará sua primeira viagem. Será rápida, apenas um dia. Será um reconhecimento. Um teste para que percebamos se não sucumbirá ao retorno a terra. O que seu amigo não contou foi que regrediu após duas vezes que esteve lá. Não suportou. Via em cada problema os próprios problemas que havia passado. Em vez de aprender, como imaginávamos que ocorresse, ele se angustiou, problematizou, adoeceu. Precisou reiniciar seu tratamento. Veremos o que ocorrerá com você. Iniciará seu treinamento a partir de hoje e aos poucos perceberá as dificuldades que irá enfrentar e como deverá proceder.

Ao observar meu olhar assustado disse por fim:

 - Não esqueça que a escolha de subir mais um degrau é sua. Aguardo-o mais tarde. Irei encaminha-lo, se assim o quiser, pessoalmente.

Fiquei a matutar como diziam os cabocos que trabalhavam para meu pai.

Matutar é mais profundo que o pensar. É escavar todo seu conteúdo. É escarafunchar, catar todas as informações, fazer um apanhado geral. Precisava de tudo isso para decidir. Será que deveria ir? Temorizei completamente. Porém, a curiosidade sempre me impera. Fui encontrá-lo no fim da tarde. Estava passivo de tão nervoso. Resolvi sublimar.

Recebeu-me com um novo sorriso, mais limpo, menos provocador. Assim, me sentia muitas vezes, provocado pelo sorriso dele, um convite ao desafio. Desta vez, tinha um formato acolhedor, compreensivo, encorajador. Guiou-me pelo braço a primeira reunião do grupo com o qual eu excursionaria.

Dramático? Um pouco. Curioso? Por demais.

Nesta expectativa, os deixo para logo voltar.

Gregório

13.03.12

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