O DESPERTAR

04/05/2012 05:22

 

“Embora ninguém possa voltar atrás e fazer um novo começo, qualquer um pode começar agora e fazer um novo fim.” (Chico Xavier).

Este pensamento de Chico traduz a história contada por Gregório nesta semana no momento de luz.

Um incentivo a descruzarmos os braços e agirmos, pois ainda é tempo. Tempo de refletir, tempo de fazer novas escolhas e seguir novos caminhos. Tempo de recomeçar e fazer um novo fim.

Como sempre diz um querido amigo: Avante!

Muita luz!

Andréa

 

O DESPERTAR

 

- Trago-lhes, hoje, a história de Joaquim Filomeno. Jovem abastardo, senhor de escravos que herdou de seu pai toda fortuna que outrora lapidou. Acreditava que a vida existia para ser vivida plenamente. Aproveitar de seus prazeres era um dever que se dizia obrigado a fazer.

Vejam que história interessante. Encontrei-o ancião, sentado na primeira fileira da Casa do Cristo. Era o membro mais assíduo. Não faltava a nenhuma reunião. Todos tinham por ele grande afeto. Passavam horas a ouvi-lo. Procuravam-no para pedir conselhos. Ele contava as grandes aventuras que havia vivido e estas sempre traziam uma valiosa lição. Consideravam-no um mestre.

Certa noite, após a leitura do evangelho, Sr. Joaquim entregou-se ao choro. Era tão dolorosa sua expressão que todos ficaram preocupados, a fitá-lo, sem mais dar atenção à reunião que decorria. Rute aproximou-se dele, tocou-lhe o ombro e entregou-lhe o momento da fala. Ele levantou-se devagar, enxugou os olhos, bebeu um copo de água fluidificada que lhe ofereciam e, acalmando-se, começou a narrar sua verdadeira história.

Suas aventuras foram um meio de ensinar aos mais novos a não cometer os erros que ele havia cometido no passado. Fantasiosas, belas e emocionantes tocavam os corações de quem as ouvia. Assim como o Cristo, usou de alegorias para ensinar aos irmãos necessitados de conhecer as palavras de Deus. Em seus contos, a misericórdia e a bondade de Deus sempre apareciam e quem o escutava compreendia que seguí-Lo era o melhor caminho.

Iniciou a fala se apresentando (fala com a qual comecei esta narrativa), depois prosseguiu.

- Assim pensava eu quando na flor da idade. Desde pequeno a vida me proporcionou tudo o quanto poderia querer. Meu pai fazia-me todas as vontades. Era um homem rigoroso e às vezes cruel, porém, comigo, seu caçula, era só bondade e delicadeza. Amava-me mais que a fortuna que conquistou com duro trabalho e desejava que eu prosseguisse seu caminho.

Foi com tristeza que me deixou partir, ainda menino, para a capital, a fim de estudar. Volta e meia se juntava a nós, na cidade, com a desculpa de fazer negócios, porém, se estabelecia em casa a me dar toda a atenção. Minha mãe e irmã mais velha não recebiam a mesma dedicação. Pude ouvir minha mãe dizer a minha irmã certa vez.  - Não se importe, os homens preferem seus filhos varões porque estes seguirão seus passos que nós mulheres não poderemos seguir.

Sentia-me poderoso e dedicava-me a realizar todos os meus desejos, sejam eles quais fossem: bons ou ruins, leves ou amaldiçoados, como minha genitora os chamavam cada vez que prejudicava a mim mesmo ou a outrem.

Era um inconsequente, egoísta que não reconhecia os outros ao meu redor, como seres humanos iguais a mim. Todos eram inferiores e deveriam responder aos meus caprichos. Ao crescer, fiquei pior, mais poderoso, mais egoísta e cruel. Os escravos sempre foram minhas principais vítimas, utilizava-os como objetos e tratava-os como animais.

Vez em quando, enxugava as lágrimas que escorriam pela face. A plateia atônita, não acreditava no que ouvia. O mestre, o pai, o conselheiro era na verdade um monstro? Ouviam-se murmurinhos, choros e revolta. Rute pediu silêncio para a escuta de um amigo que, agora, sentia-se confiante e corajoso para compartilhar conosco de sua história.

Sr. Joaquim respirou fundo e continuou:

Peço que não me julguem antes de ouvir tudo que tenho a dizer. Cometi vários erros na vida, mas tenho tentado corrigi-los, dedicando meus dias a divulgar a palavra do Senhor. Há muito perdi ainda mais tempo a me lamentar. Isolado, vivi por muitos anos, até que, certa noite, sonhei com um belo e galante senhor que me acolheu em meu desespero e orientou-me a sair da culpa e a fazer o bem. Enviou-me ao mercado a procura de uma mulher que me mostraria um caminho.

Pela manhã, ao acordar, arrumei-me rápido e sai em direção ao mercado. Lá fiquei, toda a manhã, a perambular a procura de um sinal. À tarde, cansado e fraco, deixei-me cair à beira da rua e comecei a chorar em desespero. Foi quando Rute me apareceu. Acolheu-me em seu coração. Deu-me alimento para o corpo e para a alma. Acompanhou-me até em casa e fez-se a ouvir minha história. Contei-lhe tudo. O sonho da noite anterior e o pesadelo de toda uma vida. Ela escutou-me em silêncio. Apoiava-me com seu olhar. Não me condenou. Ao término de minha narrativa, abraçou-me, deixou-me desabafar, agora, em lágrimas. Depois, restabelecido, me convidou a esta casa.

Fortalecido voltei para casa e decidi modificar o resto de vida que me restava. Desfiz-me do pouco que sobrara, procurei uma casinha aqui na comunidade e me mudei, trazendo em meu coração a esperança de dias melhores.

O passado me condena por si só. Destruí o legado que meu pai deixara. Perdi os bens, a família e a dignidade. Meu pai morreu de desgosto, minha mãe dos tropeços da vida, todos os empurrões dados por mim, seu filho. Minha irmã casou-se com um abolicionista e partiu. Nunca mais a vi.  Fui cruel com os que amava e com os que dependiam de mim. Fiquei só, pobre, odiado, desprezado. Sobraram-me os companheiros de farra que me deram as costas assim que descobriram minha situação atual. Alojei-me num pensionato, mas, ao perceberem quem eu era, fui expulso.

Uma alma caridosa enviou-me dinheiro para sobreviver, comprou-me a casa onde permaneci o resto de minha vida. Lá fiquei trancado, sem coragem de sair. Envergonhado, sentindo-me fracassado, recolhi-me a insignificância. A alma caridosa enviava-me alimento e livros. Assim vivi até encontrar Rute. Somente quando resolvi abandonar a residência soube que era minha bondosa irmã que cuidava de mim. Chorei quando soube que morrera há alguns anos atrás e deixara-me a casa como herança. Sua filha ainda mandava-me a mesada mensal com a qual a senhora que me oferecia alimento arcava com as despesas.

Dias depois de descobrir os fatos procurei minha sobrinha. Aceitou me receber. Quando cheguei a sua bela casa, não tive coragem de entrar. Pedi-lhe que me recebesse no jardim e assim ela o fez. Recebeu-me com carinho. Contou-me a preocupação de sua mãe por mim. Disse que ela não cansava de repetir que um dia eu aprenderia o caminho certo da vida e então poderíamos viver todos juntos e felizes. Aprendi tarde de mais. Não pude abraça-la e nem agradecê-la, mas não lamento mais. Visito minha sobrinha e sua família todos os domingos, almoçamos juntos e conversamos. Conto-lhes as aventuras que criei com base em tudo que vivi. Compartilhamos de lindos momentos juntos, assim como com vocês. Agradeço diariamente a Deus a sua misericórdia. Pois hoje disfruto de duas belas e harmoniosas famílias: eles e vocês. Espero que, também, possam me perdoar, e entregou-se de novo as lágrimas.

O salão ficou de pé. Um a um, cada um de seus membros, veio abraçar o velho amigo.

Fiquei emocionado e chorei junto. Soube depois, por Rute, que faziam dois anos desde a primeira participação de seu Joaquim nas reuniões. Havia sido a mesma leitura do evangelho que anos atrás o havia tocado e chamado para uma nova vida.

Não imaginei que aprenderia com meus iguais. Acreditei que uma vez aqui, na erraticidade, somente aqui aprenderia. Quanta ignorância! Se somos todos espíritos em desenvolvimento, como não aprender uns com os outros.

Obrigado querido amigo Joaquim por me deixar contar sua historia. Obrigado queridos amigos por me escutar.

Até a próxima.

Gregório

01.05.12

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