UM CONVITE A REFLEXÃO

02/03/2012 11:31

 

Esta semana, Gregório nós convida ao aprofundamento em questões, que, inicialmente, consideramos distantes de nós. Porém, através de um olhar mais apurado nos identificaremos.

Penso em todas as vezes que corremos atrás de desejos que parecem resumir toda nossa vida. Se não realizarmos, simplesmente, morreremos.

Realmente, muitas vezes acontece. Paralisados perante a vida, tal como mortos. Afundados em profundo desespero, sucumbimos. Derrotados, entregamo-nos ao desanimo, à revolta, à cólera... Ficamos sem saída.

Pior é quando encontramos na disputa desleal, no ódio e na ira, forças para continuar na busca do “insano”. Maltratamos a nós mesmos, aos que mais amamos e quem mais esteja a nossa frente ou ao nosso lado. Destruímo-nos.

O que realmente nos faz felizes? Do que realmente precisamos? Até onde chegaremos para conquistar o que desejamos? Estamos dispostos a pagar o preço?

Deixo-os com Gregório.

Boa reflexão.

Andréa

 

UM CONVITE A REFLEXÃO

 

Amanheceu um dia aqui e eu estava disperso. Não sei bem o que ocorria. Andei de um lado ao outro. Sentei, para novamente levantar. Na verdade, todos estavam inquietos. A noite anterior não tinha sido fácil. Muitos espíritos haviam chegado e continuavam chegando aos bolos.

Tentei descobrir o que acontecia, mas não havia tempo para conversas ou explicações. Havia muito trabalho a fazer. Toda colônia se juntou para recebê-los, acolhê-los e cuidá-los. Era um grande mutirão.

Por aqui, funciona mais ou menos como aí. Cada um desempenha sua função para que tudo funcione como devido. Nestes dias de intensa demanda de cuidados, muitos foram deslocados de suas reais funções em prol dos que chegavam.

Sentíamos tanta empatia com os que chegavam sofridos, necessitando de assistência, que esquecíamos o cansaço. A maioria não dormiu naquela noite. Por mais que os coordenadores nos enviassem ao descanso, ficávamos por ali, contribuindo de alguma forma: ora assistindo, ora rezando. No meu turno, não consegui parar.

Fui, insistentemente, enviado ao descanso, mas meu coração guiava-me aos companheiros necessitados. Meu cuidador, com toda amorosidade do seu coração, abraçou-me e fez-me parar. Disse que estava feliz com meu desempenho, mas era preciso recarregar as energias. Tinha medo que eu sucumbisse.

Havia, apenas, pouco tempo que eu era um espirito livre das perturbações pessoais densas, contudo algumas ainda me acompanhavam, mantendo-me em tratamento. Logo, era arriscado esticar-me tanto. Obedeci, e fui para meu quarto. No alojamento, encontrei outros na mesma aflição. Ficamos em oração por longo tempo, depois, deixei o grupo e me pus a andar, olhar as estrelas.

Não imaginam como visualizamos o céu daqui, é algo de beleza indescritível. Acostumei-me a fitá-lo, procurando por auxilio aos meus destemperos pessoais. Desta vez, não conseguiu me acalmar. Estava em extrema aflição. Além de toda a dor e desespero que podia sentir, partindo dos que chegavam, os questionamentos sem respostas me faziam tremer de comichão. Oh, curiosidade que não me abandona! Precisava compreender o que acontecia. Porém, passou uma semana até receber alguma resposta.

Ao fim de uma semana de trabalho ardo e comoções, as coisas se acalmaram. Acolhido, encaminhados ao tratamento, os acolhidos agora dormiam envoltos no sono reparador. Chegou a hora das elucidações. Meu cuidador procurou-me cedo.

 – Pronto, estou aqui. O que deseja saber?

Conhecia-me bem. Lápis e papel na mão, comecei a interrogá-lo.

- O que ocorreu? Porque tantos espíritos chegaram ao mesmo tempo? Por que tamanho sofrimento?

-Estes são resultados das ações do homem. Cada vez que um homem se deixa sucumbir pelo egoísmo, arrasta muitos outros iguais a ele pelo mesmo caminho. Pior que outros que nada têm a ver, diretamente, embarcam juntos na mesma viagem.

- O que realmente fizeram?

- Desejaram mais o poder do que a vida. Valorizaram mais o material do que o amor que Deus os enviou. Perderam-se diante de si mesmos e entregaram-se aos devaneios. Homem contra homem, destruíram-se. Eis o resultado: a dor e o sofrimento, perturbações que durarão anos a fio.

Acha que muitos chegaram, pois afirmo que somente a minoria conseguiu alcançar o que temos aqui. Muitos outros, um número difícil de precisar, mantem-se em dores ainda maiores. Perdidos em caminhos sem destinos. Preambulando pelo desespero, sem tempo de repouso, alimentação, cuidado para consigo mesmos. Esquecidos de si, embarcaram na loucura de pensamentos destrutivos alimentados pela culpa e pelo ódio. Não sabem o que fazer. Não enxergam a solução para o sofrimento que passam. Não percebem o auxílio que oferecemos.

Os que chegaram contaram com a oração de entes queridos, que lhes tocava o coração, abrindo-os para compaixão, permitindo, assim, que pudéssemos acolhê-los.

Percebeu que alguns chegaram pelas próprias pernas? Até auxiliando a trazer outros que precisavam de suporte? Estes são os que se permitiram sofrer por apoio aos irmãos. Agora retornam ao lar em busca dos seus. Tanto amor consta em seus peitos que os fizeram retornar a terra para missões edificantes. Entregues ao amor que favorece as relações mais difíceis, reuniram-se anos para assistir aos que precisam, antes de se entregarem ao descanso merecido.

Fiquei confuso. Precisei de um tempo para compreender. Se é que já compreendi. Somente quem sente um amor nestas proporções pode envolver-se dessa forma. Acho que ainda não sou capaz de tanto.

Lembrei-me das guerras humanas travadas na terra, dos seus muitos feridos, física e psicologicamente. Quantos permaneciam aterrorizados pelas batalhas já terminadas? Pensei em mim no meio deles. Usaria a caneta para descrever toda a minha indignação. Não sei se minhas mãos os afagariam. Sempre fui a favor das lutas. Nãos das guerras. Era preciso buscar o que se acredita e que não se tem. Impor melhores condições de vida aos que nem mesmo as conhecem. Por isso, utilizo do verbo impor. Se oferecêssemos, talvez recusassem, uma vez que lhes era desconhecido.

E quanto aos que permaneciam em buracos escondidos, na escuridão profunda de suas mentes, a desviá-los da realidade, sem o reconhecimento da necessidade de alcançar novos caminhos. Sofri. Compartilhei desta dor. Senti-me igual. Talvez seja este sentimento que envolve os que descem a terra só para auxilio. Seria capaz de fazê-lo? Não tenho resposta.

Só sei que minha visão de mundo novamente se transformava. Acreditam que parei por ai na conversar com meu cuidador? Considerei que já havia muito que refletir. As verdadeiras causas já não me importavam. Queria entender o que ocorria: desespero de uns, sublimação de outros. Como chegamos a estes estágios? Qual caminho percorremos? O que deve e pode ser feito para deixar o desespero e alcançar a sublimação da vida e do amor? Este é o caminho que quero traçar.

Comprometo-me a alegrá-los na próxima semana. Sei que esta história os fez pensar em tristeza, mas se faz necessário a reflexão. Achei que já era hora de aprofundarmos nestas questões.

Até breve,

 Gregório.

28.02.12

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