APROVEITE A OPORTUNIDADE
Esta semana, no Momento de Luz, Gregório compartilha conosco mais uma de suas experiências. Uma aventura que o transporta de volta ao seio familiar. O que estava a fazer ali? O que aprenderá com esta vivência? Perguntava-se o tempo todo.
Talvez esta seja a maior lição deste texto. O questionar-se: “para que vivo este momento?” As respostas, com certeza, nos conduzirão ao aprendizado, ao crescimento...
Boa reflexão!
Andréa

APROVEITE A OPORTUNIDADE
Um dia acordei atordoado, sem saber onde estava. Pensei: “- Onde estou?” E ao, novamente, fechar os olhos, observei-me em outro lugar. Nem perto. Nem longe. Suave e doce. Diferente, mais igual.
Não saberia descrevê-lo. Confuso, caminhei. E logo cheguei a um belo jardim, onde, deitado em sua relva, um grupo relaxava. Olhava para o céu e conversava baixinho.
Curioso, aproximei-me. Tive vontade de deitar-me ao lado deles, mas contive-me. Sabia que não seria educado. Caminhei mais um pouco e fiz o mesmo.
Deitado na relva, senti-me agraciado pela brisa. Fechei os olhos e senti-me levitar. Acho que sonhei. Sonho no sonho? Estava dormindo ou acordado? Desisti de questionar-me ao ouvi um lindo som de flauta.
Pensei em levantar e observar de onde vinha, mas deixe-me ficar e embalar pela bela e suave música, que ela produzia. De que importava de onde vinha? Ou quem a tocava?
Senti o corpo relaxar cada vez mais e entreguei-me a delicada sensação de flutuar. E subi alto. Cada vez mais alto. E pelo céu transitei. Aproveitei cada momento daquela deliciosa aventura.
Parecia um menino, curtindo um novo jeito de brincar. Até que ouvi uma voz chamar-me. “- Gregório, aproveite a oportunidade de aprendizado. Abra o coração, os olhos e os demais sentidos. Esta é uma aula prática. Fique atento e muito aprenderá.”
Aquietei-me. Tentei acalmar minha euforia e, novamente, me vi deitado na relva. Tentei partir do começo. Funcionou. Lentamente, meu corpo tornou-se leve e levitei. Sentidos aguçados, não mais me entreguei ao simples prazer de brincar. E encarei a nova situação como um momento de pura descoberta, fonte de novos conhecimentos.
Uma corrente de ar deslocou-me e fui beirando um rochedo. Confesso que tive medo de me machucar, porém, interessado no que poderia vivenciar, fechei os olhos e confiei na jornada planejada pelo meu cuidador. Havia reconhecido sua voz.
Levou-me a um lugar nada desconhecido. Voltei ao antigo lar e vislumbrei uma reunião familiar, logo após a minha partida. Não compreendi. O que estava a fazer ali? O que deveria aprender? Tremi.
Há longos anos afastados da convivência de entes familiares, temi fazer parte da conversa e abster-me das consequências de onde isso me levaria. Eram muitas desavenças e ódios acumulados.
Estavam presentes membros do clã que há muito tempo não via ou dirigia a palavra, mesmo antes de mudar de plano. Uma tia avó, já muito idosa, sentava-se a cabeceira da antiga mesa de jantar.
Na outra ponta, meu filho mais velho. Meu Felipe. Quanto orgulho senti ao vê-lo homem. Parecia íntegro e cauteloso como sempre fora, pediu a palavra. Falou mansamente. Dirigiu-se a cada membro ali reunido, cumprimentando com afago na alma.
Quanto esperto sempre fora. Puxou a diplomacia da mãe. Sabia se comportar diante de qualquer situação, até nas mais difíceis. Desde criança, primeiro, observava o ambiente. Depois, posicionava-se da melhor maneira. Nunca fora impulsivo como o pai.
Claus juntou-se a mim nesta nova experiência familiar. Agradeci sua presença com um olhar que tentava, ao mesmo tempo, questioná-lo sobre o que fazíamos ali.
Sorriu como sempre. Tocou meu braço e me fez entender que a hora era de ouvir. O entendimento viria depois. Odiei-o como sempre, quando me colocava em tais situações desesperadoras.
Disse baixinho: “- Acalma-se. Não tema. Estou aqui.” Como se fosse o suficiente. Na verdade, era. Senti-me confortado com sua presença e encorajado aproximei-me e pus-me a ouvi.
Felipe tentava explicar a família que o inventário havia sido concluído e que pouco restava para dividir. “- Como assim?” Gritei indignado. Todo meu patrimônio depredado. Por quem? Queria saber.
Claus posicionou-se ao meu lado e me fez ouvir. Felipe, calmamente, descreveu as inúmeras dividas que foram pagas. Dividas do jornal, recém-construído, para garantir a sobrevivência dos meus ideais.
A família retrucou. Discordava do investimento feito, ainda em vida, para o jornal local, que ganhava nome somente agora. Que fora fechado, sancionado, reaberto. Que tentava manter-se vivo.
Felipe era a favor de que o que restou fosse aplicado na manutenção do mesmo. Minha irmã discordou. Minha irmã! Que saudade da minha doce e frágil irmãzinha que sempre fora meu xodó. Como estava envelhecida. Quase não a reconheci. Reconheci seu jeito de jogar os cabelos, quando chateada e/ou nervosa.
Desejava receber pelos anos de dedicação. Cuidou da minha roupa e alimentação, quando a amada se fora. E queixou-se dos porres. Das crises. Das muitas mulheres. Dos escândalos. Repetia, bravamente:
“– Tudo isso tive que atura. Agora, com nada ficarei. Quando estava a estudar na grande capital, fui eu quem ficou a cuidá-lo. E quer decidir, sozinho, sobre o que fazer. Não admito”.
Seu filho, meu sobrinho magrela, hoje crescido, uniu-se a ela, protestando pelo não recebimento da herança. Lembrei-me de seu gosto ruim pelas companhias. Diferente de Felipe, não quis estudar. Preferia as farras. Acompanhou-me, ainda moleque, pelos bares e cabarés.
Envergonhei-me. Talvez, eu o tivesse ensinado o mau caminho. Deprimi e recebi companhia. Na verdade, atraí as que lá estavam, torcendo pelas desavenças. Claus veio ao meu socorro. Retirou-me da sala e levou-me para o fundo da casa.
Um espaço livre, organizado pela mulher amada. Onde podíamos sentir um pouco de ar puro. Sentei-me ao pé da jabuticabeira e respirei fundo, acalmando-me pouco a pouco.
Ao abri os olhos, fechados para o relaxamento, reconheci cada pedacinho daquele lugar mágico. Local onde reuníamos a família para os encontros festivos.
Não era grande. Era singelo e harmonioso. Confortavelmente decorado, aproveitando um pouquinho de natureza que restava. Flores perfumadas, mangueira e a pequena jabuticabeira que presenteava-nos com deliciosos frutos e alegres brincadeiras.
Reuníamos com Felipe, a pequena Aurora e os primos para a colheita. Nenhum vaso permanecia cheio. Costumávamos colher e comer, esvaziando um, o vasilhame do outro. Era uma festa. Sorri, emocionado com as lembranças. E meu coração preencheu-se de boas energias.
Voltei-me para Claus e questionei-o novamente. “- O que fazemos aqui? O que faço aqui?” Desta vez, não aceitaria um pedido de calma. Ansioso, precisava entender o que acontecia.
Sentirei alegria em compartilhar com vocês o desenvolver de mais esta história particular em nosso próximo encontro.
Até breve.
Gregório
17.11.13
