O VALOR DE SER QUEM SE É
Esta semana, no Momento de Luz, Gregório, gentilmente, abre seu coração e compartilha conosco de uma lembrança do passado que o fez, algum tempo atrás, enrubescer.
Acredita que, através da vivência do outro, podemos refletir e aprender lições, traçando novos caminhos, sem necessariamente, cometer erros já conhecidos.
Que possamos através da experiência do outro não julgar, mas sim aprender.
Boa reflexão!
Andréa

O VALOR DE SER QUEM SE É
Impossível falar sobre as lições aprendidas sem trazer à tona as lembranças do passado. Lembranças que me fizeram enrubescer de vergonha ao contar aos amigos feitos aqui.
Histórias de um tempo onde o ser e o fazer se confundiam com o ter. Isso, hoje, para mim, pois que, para muitos continua do mesmo jeito. Pois é... demorou, mas aprendi.
Quando era menino, gostava de saltar obstáculos. E vivia acrescentando altura a eles na hora de contar vantagens para os amigos. Vocês podem pensar que era uma simples brincadeira de criança, porém eu os afirmo que foi o início de um caminho de sabedorias imprestáveis ao meu crescimento evolutivo.
Da infância a adolescência, eu sempre encontrava um meio de parecer maior, ou melhor. O fato é que me sentia inadequado. Nunca o suficiente. Queria, pois, agradar. Ser aceito, querido, amado. Primeiro pela família, depois, pelos amigos e pela sociedade.
Baixinho, gordinho, do tipo que causa estranheza e falta de orgulho no pai, minha carta na manga era as palavras. Meu pai acreditava que eu tinha talento e me incentivava a escrever. Orgulhoso, gostava de exibir meus escritos aos seus amigos.
Então, eu caprichava, rebuscava, exagerava. Lia, escrevia, transcrevia. Capaz fui de fazer tudo que fosse necessário para me fazer um ser a altura do meu grandioso pai. Até o dia da descoberta.
Nunca esquecerei este dia, quando meu pai pegou-me a copiar algumas letras do lindo poema recém-descoberto. Entristecido, recolheu-se, sem dar uma única palavra.
Corri para o colo e os braços maternos. Chorei. E, gaguejando, tentava explicar meus motivos para o que havia acontecido. Minha mãe enxugou-me as lágrimas. Cedeu-me papel e lápis, e incentivou-me a escrever para meu pai o que sentia.
- Ele não acreditará. Sussurrei.
- Estarei ao seu lado todo o tempo. Serei sua testemunha. Respondeu, fortalecendo-me.
Deitei-me ao chão e de bruços comecei a escrever. Não sei o que me ocorreu naquele dia, tinha meus 06 anos de idade e há um ano aprendera a ler e escrever. Como um passe de mágica, as palavras iam surgindo, sem dificuldade. E eu ia pondo-as, uma a uma, sem dúvidas da importância de sua existência naquele momento, caprichando na caligrafia.
Ao fim, entreguei a mensagem a minha mãe que, emocionada, chorou ao lê-la. Beijou-me a face e encaminhou-se para onde meu pai repousava. Demoraram-se alguns segundos, quando os dois apontaram na sala. Um ao lado do outro, pareciam não me ver.
Na verdade eu não queria ser visto. Recostado no sofá, totalmente encolhido aguardava o veredito. Meu pai sentou-se em sua cadeira e minha mãe, de pé, ao seu lado, chamou-me carinhosamente.
Arrastei-me até os dois. Queria que o espaço fosse longo e fosse demorado chegar, mas meus passos lentos não me impediram de alcança-los em pouco tempo.
Diante de meu pai, tremi. Procurei os olhos da amorosa mãe, solicitando apoio e o recebi. O que me encheu de coragem e levantando a mão, pedi permissão para falar. O que me foi concedido.
Voz embargada, reconheci meu erro e pedi perdão. Meu pai balançava a cabeça em sinal de concordância, mas nada disse. Apenas se pôs a ouvir. Então, continuei. Expliquei-me, repetindo e reforçando o que havia escrito na mensagem já enviada.
Quando finalizei, ele levantou-se e palestrou:
- Espero que tenha aprendido a lição. Achei que estava claro, mas diante do ocorrido hoje, vejo que não. Tinha certeza de ter repassado para você o ensinamento do meu pai: o valor de ser quem se é.
- Nada é mais importante do que a integridade moral de um homem. E ela se faz e se demonstra na maneira que ele se apresenta, fala e age. Não queira ser mais do que é, absorvendo o ser e o fazer do outro. Seja o melhor que puder ser por si mesmo, construindo-se diariamente. Agindo assim, um dia acordara e terá orgulho. E orgulhara os seus, pelo homem que se tornou.
Afagou minha cabeça e recolheu-se novamente. Minha mãe conduziu-me ao quarto, ajudou-me a trocar as vestes e aconchegou-me no leito. Beijou-me a testa e sorriu, desejando lindos sonhos de reflexão.
Não dormi naquela noite. Contei estrelas e carneirinhos. O olhar de meu pai atravessava-me, fazendo-me pensar. Nos últimos minutos da noite, consegui cochilar. Tempo suficiente para me ver grande, sendo pego no mesmo erro e recebendo xingamentos e gargalhadas. Meu pai do outro lado a observar-me, apontava-me o dedo, julgando-me.
Acordei aos berros. Meu pai veio ao meu encontro. E ao contar-lhe meu sonho, abraçou-me, sussurrando no meu ouvido: - Não tema. Hoje, surge um novo dia. Confio em você. Sei que fará diferente.
E fiz. Jamais, após aquele dia, copiei um texto e disse que era meu. Porém, novos erros surgiram. Todos com a mesma intenção: o de me fazer maior e / ou melhor.
O meu crivo barrava o que comprometia, injustamente, o outro. Mas diante de um elogio a mais, mesmo desmerecidamente, não me fazia de rogado. Aceitava-o rapidamente.
E assim caminhei até chegar por aqui. E após anos de estudo, percebi que o que me fazia grande era ser eu mesmo. Não de qualquer jeito, mas o Ser que busca melhorar-se sempre.
Meu olhar tornou-se mais importante do que o olhar do outro. Não mais me fazia um Ser para agradar outro Ser. Mas para me tornar um Ser mais evoluído. Meu objetivo mudou.
E através do olhar do outro encontrava um caminho para crescer, embora jamais me deixasse barrar por ele. Já não me deixava paralisar. Já não me permitia Ser o que não acreditava ser o melhor. Já não sofria não Ser o que o outro esperava que eu fosse.
E ao exercitar meu olhar através do outro, percebi que o local que não mais me servia ainda disponibilizava para o outro. Ainda era capaz de achar o que outro deveria ser e apontava-lhe caminhos. Se não cabe ao outro fazê-lo por mim, como posso me autorizar fazê-lo em relação ao outro?
Agradeço o espaço e a atenção. Garanto que ao escrever-lhes, estou a aprender e reforçar o que aprendi. Com vocês compartilho minhas vivencias, não no intuito de ensinar-lhes, mas no de informar-lhes, pois cabe ao crivo de vocês absorve o que lhes parece proveitoso e indispensável ao crescer de vocês.
Até breve,
Gregório
20.10.13
